ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 564 - 17/11/2009
  Código Aberto
Início > Blogs > Código Aberto + A | - A
   
Senador insiste no controle da Web indo na contramão do processo de inovação tecnológica
Postado por Carlos Castilho em 8/7/2008 às 12:49:35 PM
 
 

O senador Eduardo Azeredo (PSDB –MG) transformou-se no cruzado do controle da internet ignorando, voluntária ou ingenuamente, que a liberdade de circulação e recombinação da informação está na base do processo de geração de conhecimento sobre o qual a nova economia digital.

 

Dito assim parece complicado e pretensioso, mas o fato é que a proposta do senador tucano, cujo nome está associado ao mensalão mineiro, revela uma teimosia em não informar-se sobre o que a internet representa no mundo atual. No ano passado, o político tucano esteve no centro de um debate sobre regulamentação da Web, que gerou muita informação sobre a rede mundial de computadores.

 

Mas ele aparentemente mostrou-se refratário aos novos conhecimentos, pois levou adiante o seu ímpeto regulatório. É claro que a internet não está imune ao crime e ao delito, porque obviamente ela não é e nunca será um colégio de freiras. O problema é que não se pode tentar regular um sistema novo usando regras e valores antigos.

 

Para criar um conjunto de condutas e valores capazes de coibir a delinqüência virtual (tipo pedofilia, roubo, difamação, chantagem, terrorismo etc) é necessário primeiro procurar entender a natureza do processo no qual estão inseridas a internet e a Web. Impor um modelo repressor idêntico ao usado para canais de comunicação como radio, televisão e cinema, é uma absurda perda de tempo e de energias, porque até os neófitos da rede sabem que será um fracasso.

 

Se eu fosse cínico recomendaria: aprovem o substitutivo Eduardo Azeredo porque não há a menor dúvida de que a lei será inócua e ficará enterrada nos porões do poder legislativo nacional. O problema é que agindo assim, estamos perdendo uma oportunidade única para ampliar a consciência das mudanças em curso no Brasil e no mundo.

 

A internet não é apenas um conjunto de computadores interligados entre si. Ela já é uma expressão do novo sistema de produção econômica e cultural gerado a partir de inovações tecnológicas como a computação e a digitalização, que por sua vez são o resultado de pressões dos agentes econômicos por processos mais rápidos e automatizdos, capazes de atender à demanda de uma população em crescimento acelerado.

 

Tentei nesta frase sintetizar grosseiramente todo o processo do qual a Web e a internet são parte. Neste processo, a rapidez de circulação e recombinação de informações é um componente essencial porque todos os sistemas usuais de regulamentação e certificação se mostram incapazes de acompanhar o ritmo frenético da digitalização.

 

As viagens espaciais teriam sido simplesmente inviáveis sem a computação porque as calculadoras analógicas não conseguiriam nunca processar dados na rapidez e volume necessário para operações, como por exemplo, a reentrada na atmosfera terrestre. Por outro lado, a indústria mundial teria entrado em colapso sem a automatização e robotização viabilizadas pela revolução digital.

 

O mundo moderno tornou-se complexo demais para que continuemos a usar sistemas e valores surgidos junto com a da revolução industrial. No contexto atual, a troca e conseqüente recombinação de informações, sejam elas em texto, áudio ou imagens precisa ser a mais ampla possível para que os conhecimentos sejam produzidos no ritmo exigido pela economia e pela sociedade contemporânea.

 

É por isto que a legislação vigente sobre direitos autorais e o próprio sistema de produção de leis tornam-se anacrônicos diante de sua incapacidade para acompanhar a inovação produzida por sistemas digitais em redes planetárias. Se não levarmos isto em conta, as propostas contidas no substitutivo em tramitação no congresso nacional serão tão inócuas como chover no molhado.

 

O debate sobre a regulamentação da internet necessita ser abordado noutras bases. A demanda regulatória existe e continuará a existir na sociedade do futuro. O que não dá, é tentarmos resolver um problema novo com ferramentas antigas. É o mesmo que usar o telégrafo na era do correio eletrônico.

 

Quando o ourives alemão Johannes Gutenberg inventou a impressão com tipos móveis em 1439 ele provocou um conjunto de mudanças que provocaram reações conservadoras muito parecidas com as embutidas no substitutivo do senador tucano[1].

 

P.S. Os professores André Lemos e Sergio Amadeu produziram uma petição ao Congresso Nacional para que o substitutivo do senador Eduardo Azeredo seja arquivado. Os interessados podem assinar o documento que contém uma contextualização ainda mais abrangente que a do post acima.



[1] Mais detalhes no  livro O Contexto Dinâmico da Informação, de Kevin McGarry, especialmente na bibliografia citada no capítulo III.

Comentários (8)
Comentar
Compartilhe
[imprimir]  [enviar por e-mail ]  [link permanente]
   
   
Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem intolerância ou crime.
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Jorge  Cortás Sader Filho, advogado/escritor (Niterói/RJ)
Enviado em 11/7/2008 às 1:29:17 PM

Castilho, como você deve saber muito bem, a Internet é incontrolável. Se Azeredo quer colocar freios, é um equivocado. Embora seja um dos meios de comunicação mais eficazes, senão a mais eficaz do mundo contemporâneo, aqui fazem ponto atividades ilícitas e criminosas, e não poderia ser de outra forma. As divulagações são livres e muitas vezes clandestinas. Controlar a internet como? Só proibindo o seu uso. Mas agora é tarde demais. E mesmo antes, poderia ser uma atitude nada denocráitca. É lastimável, mas a web pode ser uma divulgadora de atos ilícitos.
Eduardo  Melo, advogado (São Paulo/SP)
Enviado em 11/7/2008 às 11:20:36 AM

É a lei passou, resta saber agora até onde ela será aplicada por que como ela está todos nós que não atualizarmos nossos windowns etc nos tornaremos criminosos afinal, estamos alterando o software sem permissão do detentor....( usando uma adulterada frente a versão mais recente)
João  Pederiva, servidor público (brasília/DF)
Enviado em 10/7/2008 às 10:38:02 PM

Concordo com a maior parte dos argumentos. Contudo, não acredito que uma lei dessas seja inócua. Essa lei, certamente, tumultuará o Judiciário, com o conflito entre liberdade de expressão e a intenção de controle. Além disso, a sua aprovação pelo Senado evidencia que não se trata apenas de um Senador, mas de uma idéia mais ampla sobre o tema. De qualquer maneira, agora, cabe a manifestação da Câmara.
Ivan  Moraes, nenhuma (Newark, NJ/MG)
Enviado em 10/7/2008 às 10:30:43 PM

Ele tem stock em qual compania de internet?
Clarice  Bagrichevsky, Adm. Empresas / Profa. Universitária (Salvador/BA)
Enviado em 10/7/2008 às 12:13:13 PM

Esse paladino da mordaça não teria um certo e indisfaçável interesse pessoal / grupal nessa proposta um tanto anacrônica??
Fábio  de Oliveira Ribeiro, advogado (Osasco/SP)
Enviado em 10/7/2008 às 10:16:57 AM

O legislativo brasileiro quer pagar o mesmo mico que seu congênere Francês? Que ótimo! Tenho certeza que muita gente gostará de sacanear a Lei do Azeredo e demonstrar quanto ele e seus colegas de congresso se tornaram IRRELEVANTES. Azeredo é o pior tipo de ludista que existe, porque os ludistas originais não tinham o poder que ele infelizmente tem. Como diria Voltaire: a Internet só será livre quanto o último ludista for enforcado nas tripas do último legislador ignorante.
Teo  Ponciano, músico multimídia (São Paulo/SP)
Enviado em 10/7/2008 às 7:50:56 AM

O que Azeredo faz é defender o que pregam a maioria da direita brasleira: pensamento único (e óbvio que seja o deles). Neste serviço o PSDB é craque.
Maria  Flores, jornalista (Curitiba/PR)
Enviado em 9/7/2008 às 9:45:09 PM

Hola, Dr Castilho! Que delícia ler um texto com tanta lucidez! Vou usar tudinho, mas com direito a citação de autor...rs... abraço
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


Arquivo

Navegue pelos meses usando
também as setinhas azuis.
Você encontra uma descrição do conteúdo dos tópicos, dia a dia.
   2009 
DSTQQSS
12357
910121314
151618192021
22
232425262728
2930

Últimos posts
Venda avulsa de jornalões brasileiros cai a índices surpreendentes
A difícil transição do discurso para a conversa, no jornalismo online
A internet cria uma nova unidade básica no jornalismo contemporâneo
Para que tanta informação?
Pesquisa mostra que blogosfera policial tornou-se um grupo de pressão dentro da estrutura de segurança pública

Weblogs de referência
Atrium
PressThink
Contra a Clicagem Burra
Cyber Journalist
Buzzmachine
Holovaty
Intermezzo 
e-Periodistas
Editors Weblog 
Writing for the Web 
eCuaderno
Guardian OnlineBlog
Jornalismo e Comunicação
Transnets - Francis Pisani
Common Sense Journalism
Comunisfera
Contentious
CyberSoc
Behind the News
Ecosphere
Global Voices
Journalism Hope
Journalistic.co.uk
El Cuarto Bit
Social Media
Notes from a Journalism Teacher
MediaCitizen
News Dissector
Online Journalism News
Ponto Media
Rebuilding Media
Steve Outing
E-Media Tidbits
GJol
Periodismo Ciudadano
Pedro Doria
Laudas Críticas

Websites de referência
Carnegie Reporter
Columbia Journalism Review
Online Journalism Review
Media Center
Poynter Online
Online News Association
Creative Commons
Chasqui
Oxford Internet Institute
Panopticon - Facom - UFBA
OnlineJournalism.com

Textos de referência
*Abandoning the News
*History of online journalism
*Reputation Systems
*We the Media
*Como las audiencias están modelando el futuro de las noticias y la información
* Smart Mobs
Implicit Structure and the Dynamics of Blogspace
* Journalism under Fire
* Modelling the First Generation of News Media in the World Wide Web
* Buzz, Blogs and Beyond
* Towards professional participatory storytelling in journalism and advertising
* The Emergence of The Progressive Blogosphere
* We are the Web
* Civic Commons in Cyberspace
* Fixing Journalism
* Blogs, a Global conversation
* The Big Media Meets the Bloggers
* The Blogging Revolution
* The Hyperlocal Citizen Media